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O velho acorda em um quarto desconhecido.
Está sozinho, sem sua arma e sem internet.
Então, ouve uma voz.

"Um quarto de boneca" é uma peça teatral que escancara a loucura do negacionismo durante a pandemia da Covid no início dos anos 2020.

 

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Um quarto de boneca foi escrito a pedido de um velho amigo, o Manogon, com quem eu já havia montado algumas peças de teatro lá na minha segunda década de vida. Diferentemente de mim, Manogon jamais abandonou o ofício. Ele e a família sempre estiveram inseridos nesse mundo. Inclusive, conheceu a esposa no NAUNB, o grupo que iniciamos durante a faculdade e com o qual montamos algumas peças.
Em 2025, ele me mandou uma mensagem desafiadora. Pediu um texto. “Sobre o quê?”, perguntei. Por sua sugestão, algo que discutisse o Brasil entre os anos de 2018 a 2022.
Foi uma época da qual talvez ainda não tenhamos o distanciamento histórico necessário para entender. Afinal, como explicar que se aprendeu a naturalizar o que deveria ser impensável? Como aceitar que um presidente tenha dito publicamente: “E daí, quer que eu faça o quê? Não sou coveiro”, quando questionado sobre as milhares de mortes que estavam acontecendo, causadas por uma pandemia que estava varrendo o mundo? O homem que ocupou a presidência do Brasil durante a crise causada pela covid-19 teve as piores atitudes possíveis. Fez campanha contra o isolamento, indicou medicamentos ineficazes para a doença. Sabotou a vacinação, zombou da doença e das vítimas. Tudo devidamente registrado. Pior. Tudo devidamente apoiado.
Boa parte do que o personagem João diz nesta obra eu ouvi de pessoas comuns, embriagadas por uma distorção discursiva que se baseia em soltar um absurdo maior que o anterior em velocidade terminal, sem dar tempo ao outro para pensar, refutar, questionar. Foi assim que o Brasil se tornou refém da raiva e da violência.
Foi assim que os preconceitos perpetuaram. E foi assim que a apatia se institucionalizou.
Não é exclusividade brasileira. O mundo das primeiras décadas do século XXI sofre mais uma escalada de ideologias destrutivas e intimidadoras. Pastiches das mesmas que marcaram o meio do século anterior.
Um quarto de boneca não é teatro para divertir e escapar. Não é peça isenta. Não é texto apolítico. É nossa manifestação de indignação. Nosso questionamento. Meu e de quem a montar em um espaço teatral. Não é um tratado de ódio contra o personagem João. Culpado ele é, mas uma vítima também. Quanto antes entendermos isso, mais cedo acabaremos com a reprodução de tipos como ele.
Sinta-se à vontade para se revoltar ao ler ou assistir a esta peça. Sinta-se à vontade para lembrar. Principalmente, sinta-se no direito e no dever de não deixar que nada disso se repita.

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